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“PARECE QUE FOI ONTEM”

07,segUTC146UTC05bMon, 26 May 2008 22:06:32 +00002008 2007.

Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor ENTREVISTA

Caetano cai de pau

Norma Couri

 

Caetano Veloso nunca aceitou censura na língua ou nos costumes – recebeu o Prêmio Shell usando saias, abriu a casa e posou para a revista Caras e sempre que pode critica a imprensa. Ele não faz parte do rol de artistas que têm medo de perder espaço, dos quais tudo o que se fala bem ou mal reverte em propaganda, que vira dinheiro. “Não sou hipócrita”, disse o autor de Verdade Tropical, que em mais de 500 páginas publicadas no ano passado contou tudo – das brigas nos bastidores da Tropicália às idas e vindas do pensamento e da opinião livre.

Nesta entrevista concedida em São Paulo, na véspera de estrear a segunda turnê do show Livro, Caetano atacou a imprensa e só admitiu a publicação com uma condição: a de se nomear os veículos, “porque é como se eu estivesse falando com eles, o que aliás eu faria”. E fez.

“A imprensa me surpreende. Por vários ângulos. Às vezes pelo ridículo que fez a Folha ao ir entrevistar o general Bandeira e publicar a resposta do militar em confronto a uma declaração que eu tinha dado. Ele dizia que na época da ditadura nunca se preocupou, e nunca soube quem éramos nós, cantores, artistas em geral, especialmente da Tropicália. Foram perguntar isso ao meu algoz e publicaram. E eu fui preso e exilado e, aliás, nunca disse que fui o mais perseguido, apenas que fui perseguido, preso e exilado.

“A Folha adora criar falsas polêmicas, sobre as quais não estou nem um pouco interessado. Tem um tonzinho de revista de música inglesa que eles desencavam no lixo da imprensa inglesa e transpõem para jornal sério. Tudo isso é doentio para a imprensa brasileira.

“Outro veículo é a revista Veja, para a qual não falo há anos e que publicou uma reportagem mentirosa sobre uma ida minha à favela de Vigário Geral mascarado, como se eu tivesse sido o único e aparecesse lá para fazer número – o que seria o mesmo que aparecer num gueto usando suástica e gritando ‘Heil ,Hitler’. O que aconteceu de verdade foi um show ensaiado com os meninos do grupo Afro Reggae, onde todos apareceram mascarados, e no final tiramos as máscaras – eu e o Mr. Catra, o MZBill, os Racionais MCs paulistas. Era um número que criava um clima de bandido de favela, mesmo. Mas a Veja distorceu, fez uma coisa abominável e recusou-se a publicar a contestação enviada por carta pelos Afro Reggae. Aliás, a grande imprensa deve desconhecer mesmo que existe esse movimento imenso de música de periferia, música rap de favelas, que vende uma imensidão e lá é, mesmo, muito mais famosa do que eu. Porque esse país tem um apartheid e a imprensa entra nisso, esses grupos não dão entrevista para a Globo, não aparecem em nenhum veículo dos mais conhecidos. Mas crescem.

“O comportamento de Veja foi de má-fé. Como é de má-fé esse out door de propaganda da revista com a cara do Ronaldinho e a frase ‘Primeiro a Convulsão Agora a Confusão’. Eu leio isso, que está espalhado pelo Brasil inteiro, como uma tentativa de destruir o rapaz, só porque acharam o telefone dele com uma prostituta em Milão. É doentio, é marrom.

“Depois ainda pegam no meu pé porque eu apareci em Caras. E daí? Prefiro a Caras à Veja, não tenho sombra de dúvidas. Nesse ponto somos todos emergentes e gosto muito disso, isso significa mobilidade social, de um jeito saudável. Não sou preconceituoso, ou pelo menos faço um esforço para não pertencer a uma sociedade hipócrita que só gosta do que pretende ser de ‘bom-gosto.”

 

JOHN KENNEDY JR.


Vida, morte e ressurreição
do Filho da Mídia

Alberto Dines

 

Com 2 anos de idade, aos pés do poderoso pai, estava nas páginas de jornais e revistas. Com 3, fazendo continência ao cortejo que conduzia o caixão do pai, foi capa no mundo inteiro. Aos 39, desaparecendo num estúpido acidente de avião junto com a mulher e a cunhada, virou ídolo, badalado pelo coro midiático até a saturação. Ad nauseam, literalmente.

Além do charme pessoal e do karma familiar, John Jr. nada fez que merecesse as 15 aparições na capa da revista People (que, como Caras e ao contrário da Veja, encanta-se com as celebridades). Sua única ação foi justamente no campo da mídia: a revista George. Temeroso da política – que liquidou o pai e um tio – preferiu percorrê-la no estribo da amenidade: um mensário onde política e políticos são coloridos, sem os venenos do dia-a-dia.

A fórmula não estava dando certo, a editora pensava em descontinuá-la. Política joga-se como rugby, impensável levá-la para a quadra de tênis. A não ser na academia, convertida em ciência política.

Desfecho adiado por outro desfecho, dramático paradoxo: com a repercussão da morte de John Jr., os editores voltaram a interessar-se por George e já não pensam em vendê-la.

Vivo, o príncipe Kennedy não conseguiu fazer com que bancassem os prejuízos por mais algum tempo. Morto, talvez valha novo investimento.

Coisas da política? Coisas da mídia.

 

Como o pai e Lady Di

Argemiro Ferreira,

 

A morte de John F. Kennedy Jr, 39 anos, jornalista com três anos de experiência e um futuro certo na política, que fazia uma revista política diferente, original, com circulação mensal superior a 400 mil exemplares mas sem importância e sem influência, ganhou na mídia cobertura igual à do pai dele, assassinado em Dallas há 36 anos, quando ocupava a presidência dos EUA.

Media frenzy

Kennedy filho era notícia por causa do pai – e porque sua foto aos três anos de idade, a saudar o enterro dele com uma continência, comoveu o país e o mundo, virou ícone. O que aconteceu agora na mídia, em especial nas coberturas de 22 e 23 de julho, têm mais a ver com a princesa Diana (com os excessos jornalísticos daquele episódio) do que com a história e a política dos EUA ou o papel de sua família mais conspícua, a família real daqui.

No media frenzy de Lady Di havia até vilão para instigar a histeria popular – os papparazzi dos tablóides de escândalo, suspeitos de terem causado o acidente. Agora, nem isso. Prevaleceu o jornalismo-celebridade, que sustenta tablóides de supermercado e sua versão televisiva, as revistas-tablóide, exibem na TV a mesma receita de fofoca de celebridade, sexo, crime, obscurantismo, misticismo.

Como explicar o critério que elevou o filho, na morte, à estatura do pai? Velhas regras do jornalismo não explicam. O próprioKennedy Jr. sabia disso, como contou Douglas Brinkley, historiador e amigo dele. Numa conversa Brinkley fez a analogia entre seu caso e o de John Quincy Adams, único filho de presidente americano a também se tornar presidente. “Pois me sinto muito mais Lady Di do que Quincy Adams”, ironizou JFK Jr.

A “sindrome de Estocolmo”

Kennedy Jr., um bom moço, bonito, sofisticado, teve méritos, além da história pessoal comovente. Botou dinheiro em projetos sociais louváveis, fez trabalho voluntário, ajudou causas dignas. E tinha gestos – como recusar título acadêmico honorário (igual aos que universidades dão a políticos com a vaidade maior que a excelência intelectual) com a explicação de que nada fizera para merecê-lo.

Com inteligência, ironia, humor, ridicularizou algumas vezes a própria celebridade que lhe conferia status especial – que nenhum esforço fizera para conquistar. Parecia tentar, à sua maneira, honestamente, encontrar uma identidade própria. Mas nem por isso foi capaz de escapar ao fascínio do jornalismo-tablóide que acabou por marcar sua revista George.

Um psicólogo familiarizado com a chamada “síndrome de Estocolmo”, que identifica o torturado com o torturador, talvez ousasse explicar o mecanismo psicológico que tornou essa vítima crônica dos tablóides (como Lady Di, perseguida pelas teleobjetivas de seus papparazzi) tão atraída pelo estilo de jornalismo praticado por eles.

Num dos primeiros números de George o editor-chefe Kennedy Jr. fez questão de entrevistar pessoalmente o editor-chefe do National Enquirer, rei dos tablóides de supermercado. Além disso, e de sempre ter tratado com cortesia os papparazzi que o perseguiam, ofereceu razão no mínimo insólita, em palestra feita menos de três meses antes de morrer, para a existência de George.

Disse Kennedy Jr. a 27 de abril, num almoço da Sociedade Americana de Editores de Revista (ASME): “Porque só astros de cinema vendem revista? Por que só gente do show business é herói da cultura popular? Tive a idéia de descer de pára-quedas atrás das linhas inimigas e juntar-me à profissão jornalística para infiltrar minha perspectiva sobre política e, quem sabe, influir na maneira de encarar a política”.

Jornalismo com pecado original

Falava-se em certa cumplicidade entre Lady Di – como a concunhada Sarah Ferguson e outras vítimas dos papparazzi – com os tablóides de escândalo. Um lado não existe sem o outro, alega-se. O conceito pode ser duvidoso, mas a receita do jornalismo de George traz claramente a marca do estilo tablóide. Na ASME, Kennedy Jr. ofereceu mais indícios.

“Com base em minha experiência de vida eu tinha uma perspectiva única sobre a vida pública”, disse. Explicou ter crescido encarando as pessoas que estavam na vida pública como heróis. “As vidas delas eram difíceis, estavam freqüentemente sendo mal interpretadas lá fora. E aquela ilusão de grande poder, de vida à larga, era simplesmente uma informação equivocada.”

No almoço da ASME, também contou como sempre fora fascinado por revistas e sempre alimentara fantasias sobre jornalismo, falando volta e meia em fazer um jornal ou uma revista. Lembrou que um primo trabalhava no New York Post, tablóide do magnata australiano Rupert Murdoch, para desapontamento da família, alvo freqüente desse jornal e seu dono.

A palestra de JFK Jr., que eu saiba, não se referiu ao pai como jornalista. Antes de se lançar candidato pela primeira vez, ele cobrira, como repórter, a conferência de San Francisco, que criou as Nações Unidas, em 1945. A mãe, Jacqueline Bouvier, tinha sido fotógrafa. A prima Maria Shriver é jornalista-celebridade da rede NBC, casada com a celebridade Arnold Schwarzenegger.

Não seria fácil para ele escapar à receita jornalismo-tablóide-celebridade. Apesar de sofisticado, not politics as usual como proclama a cada capa, o jornalismo de George nasceu com um pecado original: política-tablóide, política-celebridade. Chegou no momento em que a TV aderia às revistas-tablóide como Hard Copy, Extra, Inside Edition, Entertainment Tonight etc.

Internet e all news

Mas a tendência de JFK Jr. na George é ainda a da célebre Tina Brown, que em busca de circulação empurrou na mesma direção a New Yorker, ex-símbolo de sofisticação intelectual, antes de lançar, apoiada em idêntica receita de jornalismo-celebridade, sua Talk – cujo prato inaugural é a má conduta sexual do presidente Bill Clinton vista pela primeira dama Hillary.

Responsável em parte pelo êxito da rede Fox de Murdoch (sua News Corporation tem tablóides na Europa, EUA e outras partes do mundo, além e explorar o veio no canal all news de cabo, Fox News, competidor da CNN, MSNBC e CNBC), a receita contamina até o jornalismo mais ambicioso das redes – do 20/20 da ABC ao venerável 60 Minutes da CBS, irmão mais velho de todos, passando pelo Dateline NBC e 48 Hours da CBS.

Foi sintomático, na cobertura de JFK Jr., as redes recorrerem aos arquivos das revistas-tablóides (em geral de produtoras independentes), as mais pródigas em imagens de Kennedy Jr.. Afinal, as redes abertas sempre tinham sido mais contidas do que as de cabo, de onde a media frenzy se propaga, desde o caso O.J. Simpson, empurrada ainda pelos excessos na Internet.

Redes de cabo têm ibopes, sabem que perdem pontos quando mudam de assunto. A competição CNN-Fox News-MSNBC-CNBC é feroz, dia-a-dia, hora-a-hora. Trágedia Kennedy é filé mignon, como o foi Monica Lewinsky e, antes dela, O. J. Simpson. Matt Drudge, então ilustre desconhecido, foi o primeiro a escrever o nome Lewinsky, na Internet. Hoje seu site Drudge Report recebe 20 milhões de hits por mês e Matt já ganhou programa no rádio e na TV.

Donos da receita triunfante, os tablóides dão-se ao luxo de fazer reformas gráficas para parecerem sérios, já que a mainstream press se tabloidiza. É o nivelamento por baixo, na medida em que se impõe como regra única a capacidade de atrair anúncios e patrocínio com audiência, circulação e hits. É o futuro? Pode ser. Mas nada tem a ver com o que a gente chamava de jornalismo.

 

Snif-snif, John-John

Henrique Vidal

 

“Talvez tenha morrido sem aceitar a evidência de que alguém chamado John Fitzgerald Kennedy Jr. (…) nunca poderia ter sido como os outros. (…) genuínos integrantes da linhagem devem mostrar valentia, audácia e arrojo em situações de perigo. Outro americano com tão poucas horas de vôo teria dito à mulher e à cunhada que seria imprudente viajar naquela noite de julho. (…) Mas um Kennedy não é, não pode ser como os outros e John Jr. (…) resolveu decolar.”

Substitua os nomes e você poderia ter a introdução para uma fantástica radionovela, daquelas que faziam as mocinhas e as senhoras encharcarem muitos lencinhos de seda ao pé do rádio nos anos 40. Até o título é apropriado: “O nome e o destino”. Mas o título e os trechos acima fazem parte do início das 14 páginas que a revista Época dedicou à morte de John Kennedy Jr.

Não, você não leu errado. Foram 14 páginas, muito bem editadas e visualmente belas, com farto material fotográfico, diagramas e árvores genealógicas. Isso na revista que tem como padrão matérias curtas e textos enxutos. Devem ser poucas as matérias da revista que ocuparam tamanho espaço. Aparentemente, a em geral comedida Época investiu-se da lacrimosidade que caracteriza outros integrantes da família Globo, em especial o Fantástico e o Jornal Nacional.

Mas, quem dera Época fosse a única. A mídia impressa brasileira enfiou o pé na jaca do melodrama ao cobrir a morte de John Kennedy Jr. Não acompanhei a cobertura televisiva por medo de morrer de overdose. Mas basta dizer que a CNN não falou de outra coisa naquela semana. Entrevistaram até o ex-assessor de imprensa do Robert Kennedy, o tio que morreu em 1968…

“Se eles fizeram nós temos que fazer igual”, macaquearam em bloco os veículos brasileiros. Na segunda-feira, 19 de julho, na Folha de S.Paulo o assunto ocupou a maior parte da primeira página e cinco páginas inteiras no miolo. Mobilizou colunistas, ex-correspondentes e o melhor do seu departamento de arte, sem falar na infalível árvore da família. Deve fazer muito tempo que a seção de Internacional não ocupava tanto espaço. O Jornal da Tarde, um veículo marcadamente local, abriu manchete para o assunto. A IstoÉ pespegou o bonitão em sua capa. Entre os veículos que li, Veja, normalmente barulhenta, acabou sendo a mais “comedida”, dedicando “apenas” quatro páginas.

Jovens, ricos, bonitos

É um evidente exagero. Acredite, até alguns setores da imprensa americana reclamaram da overdose. A equilibrada The Economist trouxe uma bela matéria de página e meia (bastante, para os seus padrões) tratando justamente da cobertura da imprensa americana para o caso. Segundo o semanário inglês, apenas o New York Times não se atirou de cabeça no rio de lágrimas. E acabou acusado de subvalorizar o assunto não pelo New York Post ou outro membro do clube da “yellow press”, mas pelo editor da Columbia Journalism Review. Dá para imaginar sisudos professors de Columbia chorando por causa de John-John? Pela Carolyn Bessete ainda vá lá…

Não estou dizendo que o assunto devesse ser ignorado. A história é triste, eles eram jovens, ricos, bonitos etc. E, gente, meu coração não é de pedra! Também fiquei com pena da prima que ia casar. Apenas, devagar com o andor que o bonitão é de barro.

Na mesma segunda-feira 19, a Folha deixou um cantinho da primeira página para um assunto muito mais relevante para os brasileiros: o fato de apenas uma das 34 teles haver cumprido as metas da Anatel (aliás, alguém aí poderia explicar por que um assunto tão intrinsecamente nacional como este, que leva o selinho “Brasil desconectado”, sai no caderno São Paulo da Folha?). Por John-John, o Jornal da Tarde deixou mais para baixo na primeira página a notícia de que a cidade de São Paulo, seu assunto de todos os dias, poderia sofrer intervenção do estado.

Afinal, o que ele era, além do editor de uma revista e filho de um ex-presidente? Sim, eu sei que os Kennedy são a família real que a América nunca vai ter. Mas e nós com isso? Será que a mídia brasileira voltou aos tempos do “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”?

Insistimos no erro de papagaiar o que a mídia mundial faz de errado e tolo, e deixar de lado o que os veículos de outros países têm de bom. E olhe que especialmente o jornalismo feito em inglês tem muita, mas muita coisa boa. Como disse a Economist, “a questão (…) vai ao coração de muitos dos debates sobre celebridades modernas: principalmente, se a mídia está apenas aplacando uma sede insaciável ou empurrando coisas goela abaixo de um público relutante”.

 

Mídia como assunto da mídia

A.D.

 

Na segunda-feira, 19/7, depois do trágico fim de semana, a mídia americana já começava a comentar os exageros da cobertura da morte de John Kennedy Jr.. Claro que isso não partiu dos canais de cabo, com o seu jornalismo não-periódico, incessante e aplastrante. Coube à mídia impressa fazer os reparos e eventualmente corrigir os rumos da cobertura.

De qualquer forma, estamos diante de dois fenômenos visíveis e cujos contornos já haviam sido flagrados por este Observatório. A saber:

Imagens sem imaginação, a canibalização dos assuntos pela saturação da cobertura –

A transformação do jornalismo em assunto do jornalismo

 

FORMATO DOS JORNAIS


A passos de cágado

Luiz Egypto

 

TT CATALÃO

Na campanha publicitária patrocinada pela Associação Nacional dos Jornais (ANJ), preparatória da lipoaspiração que cortou (ou disse que cortaria) 2,54 centímetros na largura dos jornalões brasileiros, uma das peças bradava “Mudamos a largura mas não mudamos a profundidade”. No todo, a campanha apenas incidentalmente admitia o verdadeiro intuito da mudança: reduzir em pelo menos 10% os custos do papel. Este é o insumo mais caro da operação e por sua causa o preço de capa já tinha sido aumentado em janeiro, quando da desvalorização do real. Embaladas pela ruína do populismo cambial do governo, embora tivessem estoques as empresas alegaram pressão na conta-papel e tascaram o reajuste. Este Observatório acompanhou a história e revelou as artimanhas do cartel [veja remissões abaixo].

O novo formato entrou em circulação na terça-feira, 6 de julho, com alguma pompa e nenhuma circunstância. Entre os grandes diários, apenas a Gazeta Mercantil não adotou a recomendação da ANJ. E agora, passado um mês da implantação da reforma, duas constatações, por assim dizer, saltam das páginas dos jornais:

1)

 

2)

 

Desperdício de papel de um lado, pasmaceira de outro. A rebelião de menores na unidade da Febem do Tatuapé, em São Paulo, um pardieiro-prisão com longo histórico de motins, é um episódio que revela como as mudanças cosméticas não evitam que os jornais comam mosca em assuntos explosivamente jornalísticos. Pelo menos nas cidades em que estão sediados.

Em São Paulo, os telejornais da noite de terça-feira (27/7/99) foram pródigos em imagens da rebelião da Febem, que eclodira na manhã do sábado anterior, dia 24, e desde então prosseguia na base do stop and go. Enquanto o pavio queimava por quase 72 horas, os jornais dormitavam. Mesmo porque, convenhamos, é muito complicado quando um assunto quente aparece bem naqueles fins de semana acorrentados às edições semiprontas, pret-à-porter, fechadas com burocrática antecedência. Os jornais poderiam antecipar-se à TV, mas não o fizeram. Tanto é assim que na manhã daquela mesma terça-feira a rebelião mais importante para os jornais ocorrera em Rome, no estado de Nova York, ao final do festival comemorativo dos 30 anos do Woodstock original, cuja versão 99 acabou em quebra-pau. A imagem dominante das capas foi a de um jovem com braços levantados em V, garrafa na mão esquerda, com uma fogueira abrasando todo o fundo – como se vaticinando que, em tempos de exclusão e de neofascismo, esse negócio de paz e amor já era.

A rebelião dos maiores

A greve dos caminhoneiros começou na segunda-feira (26/7), durou quatro dias e sua organização e sincronia demonstraram como é possível paralisar o abastecimento do Centro-Sul do país rodoviário. Se a greve revelou um governo federal atarantado, sem ação nem decisão nas horas mais críticas, de quebra também expôs o acomodamento da mídia. O jornalismo da TV, tão surpreendido pelo fato quanto os jornais impressos, fez uma imediata cobertura de imagens, como era mesmo de se esperar, mas preferiu vocalizar quase sempre as versões oficiais, com exceção quase nenhuma. Já os jornais, espantados com a dimensão de uma greve logo numa manhã de segunda, correram atrás do prejuízo e só nas edições de quarta e quinta-feiras tomaram algum pé da situação. O fim da greve, claro, foi noticiado com destaque (sexta, 30/7). Mas foi um título secundário do caderno regional FolhaCampinas, (28/7) o mais revelador de toda a cobertura: “Motorista diz estar surpresa”. Os leitores, também.

Quem se acomoda não se antecipa. Não seria pedir muito que um repórter pudesse ser capaz de farejar os preparativos do movimento dos caminhoneiros, que se organizava havia seis meses. Seria pedir muito, sim, considerando que a ordem unida imperante nas redações evita colocar repórteres na rua para sentir o pulso das pessoas e os ânimos da sociedade. As redações são ambientes onde vicejam, fortes e rijos, o jornalismo declaratório e a “reportagem” por telefone – salpicados de opiniões e de opinionistas. O Movimento União Brasil Caminhoneiro não mereceu a menor atenção, ainda que um dos seus líderes comandasse um programa de rádio. Aqui, nem a rádio-escuta funcionou. Entrementes, os jornais davam curso ao trivial variado de sempre, afoita e irredutivelmente amarrados ao jornalismo reativo, e só a ele. Mudaram a largura e continuam tornando a profundidade cada vez mais rasa. Fast food.

 

ESCUTA TELEFÔNICA


A condenação de Linda Tripp
e a ilegitimidade dos grampos

Alberto Dines

 

A notícia mereceu notas pequenas nas edições dos jornalões brasileiros no sábado 31/7. Mas no New York Times do dia anterior foi destacada a condenação de Linda Tripp, a única personagem do caso Mônica Lewinsky vs. Clinton que conseguiu unanimidade: foi considerada abjeta por todas as facções.

A sentença foi proferida por um juri em Ellicot City, estado de Maryland, onde gravações clandestinas são ilegais. Também o vazamento do teor das gravações para a Newsweek foi considerado ilegal.

Grampo telefônico em Maryland dá cinco anos de cadeia e 10 mil dólares de multa. O vazamento de escutas ilegais, outros 10 mil dólares. O advogado de defesa pediu permissão para que Linda Tripp se apresentasse voluntariamente em lugar de ser detida.

Recordando: Linda Tripp fez gravações de 20 horas de conversas telefônicas com a sua amiguinha Lewinsky e, depois, levou as fitas para o promotor especial Kenneth Starr. Além disso, vazou para o semanário Newsweek o conteúdo das confissões telefônicas da estagiária sobre o seu caso com o presidente Clinton. Como se recorda, a revista recusou-se a publicar o furo – que acabou sendo revelado num site de fofocas políticas – porque antes teria que averiguar e investigar a confiabilidade das informações.

A agente “literária” Lucienne Goldberg admitiu sua responsabilidade em persuadir sua cliente, Linda Tripp, a fazer as gravações e, com base nelas, escrever um livro sobre os anos em que trabalhou na Casa Branca. Não foi revelado se foi considerada cúmplice.

Compreende-se porque nossa imprensa (que sobrevive às custas de grampos e vazamentos) não destacou a notícia.

 

VIOLÊNCIA


Polícia demorou
a assustarVeja

Mauro Malin

 

Por que Veja “descobriu” agora que a polícia é parte constitutiva da violência (capa da edição de 4/8/99, sob o título “A polícia bandida”)? Por que só agora, 30 anos depois da frase do bandido Lúcio Flávio cada vez mais contrariada pelos fatos (“Polícia é polícia, bandido é bandido”)?

Será que é porque até pouco tempo atrás a polícia cumpriu (satisfatoriamente, quase se poderia dizer magnificamente, olhando do alto da pirâmide social para baixo) o papel que dela esperavam as camadas da sociedade que mandavam no país?

A polícia brasileira, no seu dia-a-dia, prende negros e mulatos, ou “baianos” (em São Paulo), ou “paraíbas” (no Rio de Janeiro), prende pobres – e às vezes nem tão pobres – ameaçadores, culpados ou não, espanca ou tortura suspeitos, costuma deixar passar crimes e infrações dos ricos, cobrando o serviço em dinheiro ou favores. E a classe média achando que não é com ela.

Mas agora a polícia não “funciona” mais para ninguém. Seqüestro deixou de ser drama de rico. Qualquer pessoa com cartão magnético bancário pode ser seqüestrada. Não há limites claros. Então Veja põe a boca no trombone.

Certo? Mais ou menos. Na prática, alguém obteve um levantamento um pouquinho mais completo sobre criminalidade policial (“Levantamento inédito mostra que criminalidade entre policiais [sic] atingiu um patamar assustador”), alguém tirou pela primeira vez fotos do pátio do presídio da PM de São Paulo (a que foi publicada não informa coisa alguma, a não ser que há presos uniformizados lá dentro). E vamos nessa. “Matéria de capa”.

Vamos nessa. Vamos falar do atraso e das omissões de Veja.

Faz um quarto de século, Chico Buarque cantou: “Não discuta à toa não reclame/Clame, chame lá, clame, chame/Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão” (letra completa generosamente disponível em http://www.chicobuarque.com.br).

É terrível quando um grande veículo de imprensa “descobre” com décadas de atraso, numa reportagem que começa com um “É terrível…”, uma das mais dramáticas preocupações do povo.

É terrível quando apresenta a esse respeito um dossiê cheio de furos.

É terrível quando pontos essenciais para a compreensão do problema são negligenciados ou se lhes atribuem pesos equivocados.

É terrível quando trata o leitor como debilóide (“É claro que todo mundo quer que a polícia melhore o desempenho”; em tempo: uma ova que “é claro que todo mundo quer”).

E é terrível quando, para não ficar sem preceituar (visão arrogante da função social), prega, sem citar na reportagem um só especialista lúcido, obviedades requentadas incapazes de mudar a natureza do atual estado de coisas.

Mas ficar chateado com Veja não resolve. Não se sabe exatamente o que “resolve”, porque mesmo as soluções, neste mundo, criam novos problemas. Em todo caso, que cada um cumpra sua parte. Veja publica, o leitor aqui questiona.

1)

 

Mas policiais corruptos sempre houve. E os “esquadrões da morte” foram criados na primeira metade dos anos 50, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, por policiais veteranos da Polícia Especial do Estado Novo (o chefe de Polícia era um oficial do Exército, Amaury Kruel). A Rota é um subproduto truculento do malufismo, filho dileto, em São Paulo, da ditadura. Há quatro anos, haviam sido detectadas na unidade duas quadrilhas de assaltantes assassinos. Uma foi desbaratada depois do latrocínio de um comerciante. Da outra não se teve notícia. Estará por aí em ação? Num ano da década de 1980 em que a PM resolveu desarmar todo mundo que entrava no quartel do Regimento Caetano de Faria, onde era feita a apuração do desfile das escolas de samba do Rio, vários oficiais e ex-oficiais das Forças Armadas, alguns a serviço de bicheiros, foram pegos com trabucos.

2)

 

3)

 

4)

 

E há corrupção também nas Forças Armadas, felizmente em escala bem mais discreta. Investigue-se como se roubam armas dos quartéis militares. Há pelo menos duas décadas quadrilhas do Rio de Janeiro põem recrutas dentro dos quartéis. Fuzis e metralhadoras saem, em seu lugar ficam penduradas réplicas de madeira pintadas de preto. Investigue-se o que ocorre em quartéis de fronteiras onde agem traficantes.

5)

 

6)

 

Mas é certo que o problema é mais grave na cúpula do que na base. E pior, quase sempre, na cúpula da cúpula. Lá em cima. No México, o general chefe do combate ao narcotráfico tinha sido contratado por uma quadrilha de traficantes. E o irmão do ex-presidente Carlos Salinas de Gortari, Raúl, preso em 1995, era conhecido como “Mr. Dez por Cento”. Salinas, o ex-presidente, auto-exilou-se na Irlanda.

7)

 

8)

 

Também não é privilégio brasileiro. Frank Serpico, encarnado no cinema por Al Pacino (Sidney Lumet, 1973), morreu exilado na Europa depois de sobreviver a várias tentativas de assassinato por parte de colegas seus da polícia de Nova York. Ele não se preocupava com a violência policial, mas com o fato de que o fluxo de dinheiro corruptor tinha passado dos limites. As polícias de Chicago e Nova York foram insuperáveis em banditismo sob o influxo da Lei Seca, antes da Depressão. Muitos anos depois, a confusão ainda era total. Sterling Hayden, tenente da polícia em O Poderoso Chefão (Francis Ford Coppola, 1972), é guarda-costas de um mafioso rival de Don Corleone (Marlon Brando). Gian Maria Volonté, em Um cidadão acima de qualquer suspeita (Elio Petri, 1970), é ao mesmo tempo o chefe da polícia e o criminoso. Seu discurso ecoa o fascismo: “Repressão é civilização”.

Isto não quer dizer que a maioria dos policiais (e juízes, e promotores, e autoridades), em qualquer país, não queira ficar de bem com a sociedade. A questão não é querer, é poder. Nós, sociedade, também sabemos de tudo isso e também queremos ficar de bem com a polícia, os juízes, os promotores. A proposição só não se aplica a corpos de janízaros, como, por exemplo, os tontons macoutes do Haiti de François Duvalier ou a Stasi da falecida RDA.

9)

 

10)

 

Há um problema de critério jornalístico que é no fundo um problema filosófico. Veículos sérios, que apuram exaustivamente os fatos relatados, na hora de raciocinar mais fazem perguntas do que dão respostas. Veja afirma e conclui o tempo todo. Preceitua. “Ensina”. Em matéria de apuração, embrulha e manda. Comete erros e não pede desculpas. Confunde credibilidade com infalibilidade (prerrogativa exclusiva do papa, e só desde o século passado). Está demorando a perceber o que significa o fim do monopólio da distribuição da informação, decretado pela Internet.

Quanto às polícias, muitas providências reorganizativas são necessárias (não confundir policiamento preventivo fardado com polícia judiciária, acabar com a dicotomia “civil/militar”, não misturar manutenção da ordem com combate à criminalidade, aproximar a polícia da comunidade, tirar da polícia a tarefa inglória e corruptora de guardar presos, e outras que os especialistas sabem descrever muito melhor do que este articulista).

Mas há dois preceitos políticos básicos com que a reportagem de Veja nem sonha:

A)

B)

 

Boas reportagens sempre ajudarão a avançar nessa trilha. Mas é preciso que sejam boas.

 

CONTOS DA CAROCHINHA


Panacéia da pobreza

Carlos Vogt

 

Quem descobriu o Brasil? Foi Pedro Álvares Cabral.

Quem descobriu que o Brasil nasceu na Bahia? Foi a Rede Globo.

Quem descobriu que o Brasil fica na Bahia? Não foi só o ACM.

Quem descobriu a pobreza no Brasil? Foi o ACM, o FHC e o Suplicy (este com menos destaque na imprensa, porque, na época, a navegação de mangues ainda não estava na moda).

Luis Fernando Verissimo, em sua coluna diária no Estado de S.Paulo e no Globo, chamou a atenção para o caráter de triste galhofa da disputa entre os presidentes – da República e do Congresso – sobre a paternidade da descoberta do Brasil pobre e das soluções que, de tão mágicas, até agora não se aplicaram e com toda possibilidade jamais se aplicarão.

É jogo de cena eleitoral. É finta de atacante político competente nas artes da dissimulação e de esperteza.

Depois de criar a expectativa, ajudado, e muito, pela imprensa/mídia, em torno do anúncio da panacéia, eis que, anunciada, mostra-se com os mesmos pés-de-barro de todas as soluções que os governos brasileiros têm adotado: aumentar os impostos. No caso, como sempre, passando sua gestão e gerenciamento para as mãos das cabeças coroadas que o inventaram.

E a reforma tributária que se dane, o desemprego me ne frego, a violência que se estoure, a educação e a saúde, salvem-se se puderem, e a pobreza, ela mesma, em carne e osso, que se contente em ser figurante em mais essa comédia de enganos em que ricos e faustosos brincam de solidários e magnânimos.

Até aí o script segue a lógica do previsível. Menos lógico e menos previsível é que a nossa imprensa/mídia acalente com tanto ardor juvenil os velhos sonhos eleitorais de velhos fidalgos de nossa nobreza política e se preste ao papel de marqueteiro encantado com os contos da carochinha do leva-e-traz.

 

NÚMERO-NOTÍCIA


A “teoria do medalhão”

Spacca

 

Li artigo de Antonio Beraldo, “O canto das pesquisas” [Observatório on line nº 71, veja remissão abaixo]. Beraldo escreve: “Os jornais deitam e rolam quando sai uma pesquisa recheada de números deprimentes, se esmeram em fazer com que estas cifras sejam ainda mais vergonhosas”. É verdade. Nós – jornalistas e leitores de oposição – ficamos satisfeitos quando a vox populi dá nota baixa aos governantes, como se finalmente a verdade estivesse vindo à tona. Será que não estamos rindo à toa?

Apenas para examinar algumas considerações, vamos supor uma pesquisa ideal, conduzida com honestidade e eficiência, e publicada sem distorções e apelos. Então lemos que caiu a aprovação popular ao presidente. E daí? De que valem esses dados, sem avaliar como é construída a imagem do presidente e do governo em geral?

Quem lida mais de perto com a informação política (os jornalistas e os leitores do primeiro caderno dos jornais) acompanha ou tenta acompanhar as manobras, decisões e indecisões dos políticos. E com grande chance de errar, pois só temos acesso ao que é revelado pelas “fontes”.

Ora, o “povo” das pesquisas é imensamente maior do que este leitor atento e seleto que somos. O povo que vota, o eleitorado, supera de longe o “leitorado” que forma o universo mental do jornalista. O povo é multidão, quando reunido fisicamente e mobilizado por algum evento esporádico; e é público, quando unido virtualmente pelos meios de comunicação. Nestas duas formas, ele julga pela imaginação e pela emoção, não por informação. Pois as pessoas não conseguem raciocinar coletivamente; em grupo, o que as une em primeiro lugar é a emoção, é a reação irracional a certos símbolos, slogans, palavras de ordem.

Não queremos desqualificar toda e qualquer manifestação popular de desagrado, sintoma de má administração pública e descontrole da ganância privada. Mas quando o povo se manifesta numa pesquisa para “dar uma nota” ao presidente, essa avaliação tem pouco ou nada a ver com a percepção de como está se portando o governo neste momento. É muito mais provável que a imaginação popular tenha sido impressionada por coisas mais irrelevantes, mas de alto poder simbólico (frases ditas sem pensar, estagiárias, charutos). Ou, ainda, por coisas concretas que interferem diretamente em sua vida (um aumento de preços, por exemplo), estejam ou não relacionadas à administração pública.

Metafísica machadiana

Já aconteceram coisas escandalosas neste governo, mas como se tratava de tema técnico, difícil de decifrar e explicar até pelos que entendem do assunto, o escândalo não escandalizou, o fato não conseguiu sensibilizar a massa. Por outro lado, o que faz o presidente, ou outro político qualquer, ao tomar conhecimento da sua baixa popularidade? Resolve tomar vergonha na cara e fazer o que os editoriais exigem? Tenta finalmente cumprir a agenda de campanha, revê as estratégias econômicas, redefine as prioridades governamentais?

Nada. Se os números baixos tocarem a sua sensibilidade de homem público, o que ele fará será bolar alguma ação política vistosa (um gesto de força, como quem bate certa coisa na mesa), um conjunto de medidas inócuas mas com alto potencial simbólico e publicitário (ou seja, algo simples demais para dar certo), enfim, algo para gerar efeito a curto prazo.

Ainda continua válida a “teoria do medalhão”, exposta em conto homônimo de Machado de Assis. Em política, não desça a detalhes práticos; entre os negócios miúdos e a metafísica política, prefira a metafísica: “Se, em teu discurso, desejares saber por que motivo a 7ª Companhia de Infantaria foi transferida de Uruguaiana para Canguçu, serás ouvido tão-somente pelo ministro da Guerra. Um discurso de metafísica política apaixona os partidos e o público, não obriga a pensar e a descobrir”.

 

MÍDIA REGIONAL


Voçorocas do Vale

Luiz Egypto

 

Além de serviço público, os jornais são também negócios, não se duvida. E negócios bem-sucedidos serão garantia de independência editorial e econômica. Mas certos “negócios” empreendidos pelas empresas editoras teimam em comprovar uma proposição formulada pelo Observatório da Imprensa, três anos atrás: o avanço da brava rapaziada do comercial nas instâncias decisórias dos jornais compromete perigosamente a qualidade editorial dos veículos.

Exemplo: na terça-feira (27/7), os exemplares da Folha de S.Paulo distribuídos no Vale do Paraíba (SP) circularam com um encarte comemorativo aos 232 anos de São José dos Campos, o maior pólo industrial da região. Uma beleza, a publicação, no que toca ao formato: 31,2 cm de altura por 27 cm de largura, refile perfeito e dois grampos na lombada.

Desde 1994, São José dos Campos é a cidade do interior paulista que mais atrai investimentos diretos – algo como 4,5 bilhões de dólares de lá para cá. Os marqueteiros do escritório regional da Folha perceberam isso antes dos jornalistas e foram à luta. Resultado: as 32 páginas do suplemento FolhaVale Especial dão um show de performance comercial. Ao todo 26 anúncios de formatos variados, nesses incluídos a página dupla central e a 4ª capa em quatro cores; e outras 9 páginas sob a rubrica “Patrimônio Humano”, chanceladas pelos logotipos da Prefeitura Municipal e da Univap, Universidade do Vale do Paraíba, uma instituição particular em franca ascendência no mercado regional de educação.

Se a maré estivesse para peixe, seria o caso de a Folha pagar “um plus a mais” à moçada do comercial da FolhaVale, porque eles fizeram um gol. Mas isso não vem ao caso. O que importa é notar como a propalada independência de um veículo (ou de seus filhotes) se manifesta em forma de “notícia”. Atenuando detalhes como “…[José Marcondes] Pereira ainda voltou ao poder como deputado estadual em 67 e, mesmo cassado dois anos depois – o que mostra a animosidade política da época –…” (os grifos serão meus); deixando de lado uma capa que parece concebida propositadamente confusa, de tão confusa que é; relevando tudo isso, atenhamo-nos às chamadas de capa para o que é (ou deveria ser) matéria jornalística do encarte.

A principal é “Teses resgatam a história de São José”, que remete aos títulos internos “Pesquisas tentam preservar memória” (pág. 2) e “‘É um município sem memória’” (pág. 3). As três chamadas secundárias de capa anunciam os planos de obras do prefeito para 2000, a questão dos loteamentos clandestinos, e a última informa: “Despesas com festividades de aniversário de fundação da cidade aumentam 25% neste ano. Página 22″.

Este é o padrão Folha, sempre crítico. Urge uma denunciazinha para temperar a pauta insossa. O melhor é que um dos motivos desse aumento de despesas poderia ser deduzido de suas próprias páginas – 12 delas institucionais. Nove co-patrocinadas pela Prefeitura e pela Univap, e a dupla central exclusivamente dedicada a loas à administração municipal. Isso custa dinheiro, dinheiro público.

Conseqüências de edição capenga fechada a partir de pauta pífia: a matéria sobre a Embraer, empresa de tecnologia sediada na cidade e a segunda maior exportadora do país (produz aviões e perde apenas para a Vale do Rio Doce em vendas no exterior) tem exatas 40 palavras, com foto, e aparece publicada sob o chapéu “Contas Públicas”. Um luxo.

 

Os Guerrilheiros da notícia
e a síndrome de Truman

Isak Bejzman

 

Margarethe Born Steinberger, chefe do Departamento de Comunicação Jornalística da PUC-SP, inicia seu artigo “Truman e o espaço público mal resolvido” [ver remissão abaixo] comentando o filme de Peter Weir Truman, o show da vida. Diz ela que o diretor do filme “transforma em espetáculo um conceito muito desgastado nesse final de século, que é o conceito de verdade. No mundo fake (falso) do personagem Truman, a verdade vira show”.

Segundo Margarethe, o personagem, Truman, “cresce em uma sociedade na qual, sem que ele saiba, todos são atores contratados por uma emissora de TV – sua mulher, seu melhor amigo de infância, seus pais e até a mocinha do filme, que se apaixona por ele e tenta contar-lhe a verdade. Nas ruas, os vizinhos, o vendedor de jornais, os ambulantes, todos são simulacros especialmente construídos para dar verossimilhança ao mundo de Truman. Vivendo em uma espécie de bolha de realidade, Truman começa a desconfiar de que há alguma coisa errada quando descobre que seu pai, morto por afogamento em um traumático passeio de barco, está vivo. Na verdade, o pai de Truman é apenas mais um ator contratado pelo diretor de TV, Christof, para trabalhar no Truman Show, o programa de maior audiência em uma sociedade hipotética, talvez do futuro. É essa sociedade que se acotovela em lanchonetes de fast-food para assistir ao show full time que é a vida real de Truman”.

A TV Guaíba, de Porto Alegre, apresenta de segunda a sexta um programa de mais de uma hora intitulado Os guerrilheiros da notícia, comandado pelo jornalista Flávio Alcaraz Gomes, jornalista experimentado, inteligente e profundo conhecedor do ramo.

A mesa, em forma de V, tem no vértice o jornalista Gomes. O programa funciona com participantes permanentes e participantes em dias certos da semana. Dos três “guerrilheiros” permanentes, dois são jornalistas e um é empresário da área das finanças, cujo nome é Baldi. Os demais “guerrilheiros” costumam ser juristas, políticos, professores, médicos, engenheiros, advogados, um padre etc.

O nome Guerrilheiros da notícia faz pensar que se trata de um programa em que um fato, entendido como notícia (pelo coordenador ou pelos “guerrilheiros”) é esmiuçado e debatido sob os vários pontos de vista possíveis. Ledo engano. Penso até que esta deveria ser a intenção de quem idealizou o programa. Infelizmente, não é o que acontece. O programa é uma guerra do senhor Baldi contra um grupo de homens e mulheres inteligentes, sensatos e respeitosos com os telespectadores e os companheiros de mesa.

O senhor Baldi, na defesa de seus pontos de vista, ultrapassa impulsivamente os limites do respeito e do que se chama “convivência social civilizada”. Ele confunde o direito ao ponto de vista numa democracia com uma conduta desadaptada quando, no programa, faz da agressão sua linguagem corporal, facial e verbal.

Enquanto a fúria do senhor Baldi estava contida aos estúdios, muitos gostavam do programa. Agora os telespectadores mandam cartas, faxes e correios eletrônicos, que Flávio Alcaraz Gomes lê no ar, e grande parte desta comunicação assumiu caráter macartista e desrespeitoso com os que pensam diferente do senhor Baldi. Flávio as lê todas, mas fica neutro, não comenta; e a semente macartista está em franca expansão.

Um canal de TV, por ser patrimônio público, é um espaço público; é uma concessão. Permitir o uso de um canal de TV para promover o macartismo, numa sociedade que se pretende democrática, é no mínimo desagradável e denota falta de elegância, tanto no âmbito social como no político.

Meu comentário terminaria por aqui se, por acaso, eu não tivesse comentado o programa e a conduta do senhor Baldi com um amigo meu, cirurgião plástico, e obtido a seguinte resposta: “Que nada, conheço o Baldi, somos muito amigos. O Baldi é uma pessoa finíssima e muito educada. Tu precisa entender, Isak, que aquilo tudo que acontece na TV é teatro”. Percebendo meu espanto, meu amigo passou a tecer considerações em favor do senhor Baldi com tanta veemência que, por conhecer bem meu amigo, acabei por aceitar sua opinião.

Mas de uma coisa tenho certeza: a poluição macartista não é teatro, não.

(*) Psiquiatra e jornalista

 

PÉROLAS
Saudade do redator

Marinilda Carvalho

 

Um jornalista meu amigo, Benício Medeiros, redator do Jornal do Brasil na década de 80, guardava na gaveta cópias de matérias esdrúxulas que chegavam a suas mãos para copidescar, e que ele chamava de “pérolas”. A pilha era grande. Um caso notável foi o de um lide mais ou menos assim: “‘Luz, mais luz!’ As últimas palavras de Goethe seriam atendidas a contento se ele fosse imediatamente transportado para a Avenida Atlântica, que teve sua nova iluminação inaugurada ontem e está um esplendor.”

No caderno Ilustrada, da Folha de S.Paulo de 21/7, uma manchete de meia página grita: “Não houvesse se caçado, Hemingway faria 100″. Vejam trechos da matéria, de cujo autor, por motivos óbvios, nem citarei o nome.

“Em 2 de julho de 1961, Ernest Hemingway apontou uma carabina de dois canos em direção ao seu próprio pescoço e, caçador experiente, não errou o disparo. Não houvesse caçado a si mesmo, o escritor norte-americano completaria hoje 100 anos.

“Na realidade, Hemingway dificilmente chegaria, como a maior parte dos humanos, a visualizar seu bolo de aniversário coberto por uma centena de velas.

“Paradoxalmente, talvez tenha ficado mais vivo ao explodir sua própria cabeça.(…)”

“(…) Tido como o autor de língua inglesa mais traduzido depois de Agatha Christie, o autor ganha festejos em diversos locais em que o Sol se levanta.(…)”

“(…) A vida do escritor, mais uma vez, se justapõe à sua obra. E a obra cada vez mais tenta ficar mais extensa que sua vida.”

Meu Deus… Esse caderno não tem redator? Suicídio de caçador então é caçada? E um caçador inexperiente erraria tal disparo? E os animais, conseguem visualizar (visualizar???) seu bolo de 100 velas? E que paradoxo esse, hein, de que ao morrer se fica mais vivo… Além de obviamente curiosa sobre os locais em que o Sol não se levanta, foi um espanto só ver uma vida justaposta a uma obra, disputando longevidade.

A sorte da Folha é que o concorrente não fica atrás em baboseiras. Vejam a contribuição do leitor Ernesto Alves

“Tenho lembrado com freqüência de meu professor de português no Colégio São Luiz, o professor Vale, que diariamente lia o Estadão de ponta a ponta em busca de erros. Ficava felicíssimo quando os encontrava! Levava então o jornal à classe, com o erro assinalado em vermelho, e dele partia para sua aula. Passados mais de trinta anos, achar erros no jornal virou coisa para crianças. São tantas as impropriedades que chego a desconfiar que o Estadão dispensou seus revisores. Um verdadeiro atentado à última flor do Lácio, um desrespeito ao leitor.

Na edição de 22/7, o problema atingiu o limiar do absurdo! Lê-se o seguinte na página A16, sob o título “Piloto novato revela seu espanto pelos riscos e erros durante o vôo”, referente ao acidente que matou JFKJr.:

‘Voar sobre a água ou montanhas é também um risco para monomotores’, afirmou, ‘no caso de um dos motores falhar’

É preciso dizer mais alguma coisa?”

Como bom aluno do professor Vale, Ernesto ficou no pé do Estadão, e mandou outra mensagem em 26/7:

“Você viu na edição de hoje do Estadão, na página C2, matéria sob o título ‘Multidão assiste a implosão de prédio em Praia Grande’? Não, não me refiro à crase que falta no título e sim à seguinte preciosidade:

“… O resultado do trabalho foi comemorado pelo diretor-técnico da SDI, o engenheiro Herbert Faustino. A casa vizinha teve três vidraças quebradas. Mas o sismógrafo apontou um deslocamento de ar de apenas 16 milímetros, o que equivale a um fechamento mais brusco de uma porta.”

Se a jornalista que assina a matéria, diz Ernesto, consultasse o Aurélio, não escreveria tamanho disparate. “Comemorar virou uma muleta e tanto!”

Comemorar [Do lat. commemorare.] V. t. d. 1. Trazer à memória; fazer recordar; lembrar: O ano de 1972 comemorou o quarto centenário de Os Lusíadas. 2. Solenizar, recordando: Com esta festa comemoramos o centenário do grande poeta. 3. P. ext. Festejar, celebrar: Deu uma grande festa para comemorar as bodas de ouro.”

“Um deslocamento de ar de 16 mm também é um achado! Será que o fechamento brusco de uma porta é capaz de quebrar três vidraças?”, pergunta Ernesto.

Ai ai… saudade da geração de redatores como Benício. Se ainda estivesse na redação, o repórter maluquinho era chamado a se sentar ao lado do copy, que cortava os absurdos sem piedade e explicava o porquê. Se o incauto já tivesse ido embora, reescrevia-se a matéria toda – um trabalhão acompanhado, claro, de muitos xingamentos.

Onde já se viu???

 

JORNAL NACIONAL



José Rosa Filho

Veneno nas estradas 

O Jornal Nacional insiste em brincar com a inteligência do espectador. Em 29 de julho de 1999, a chamada principal era a greve dos caminhoneiros. Pois bem, qual foi a “mensagem” que os gênios da comunicação (são realmente gênios) tentaram passar ao público?

Durante todo o noticiário, a tentativa era deixar na cabeça dos telespectadores a impressão de que a paralisação, além de ser criminosa, fora um fracasso. No fim, todos (todos?) anestesiados pelo “veneno” circulando nas veias, ficam sabendo que aquele tumulto provocado – segundo a conotação que o noticiário queria dar – por irresponsáveis trabalhadores tivera êxito. Na verdade todas (ou quase todas) as reivindicações dos caminhoneiros vão ser agora discutidas, num prazo de 90 dias, pelo governo; isto é, o comando de greve saiu vitorioso.

Mas o mais negativo em termos de um noticiário de alcance nacional, como é o caso do JN, é o fato de que em nenhum momento foi feita uma referência ao histórico do movimento. Ou seja, qual a razão, quais as principais reivindicações dos trabalhadores, quanto tempo de tratativas e advertências para um possível desfecho de greve, o que aliás acabou acontecendo, trazendo grandes prejuízos a todos. Sem falar na atitude anterior, no mínimo displicente, do ministro dos Transportes para com o líder do movimento, Nélio Botelho.

Mais uma vez o Jornal Nacional comete o engano de julgar todas as inteligências por um mesmo parâmetro. E parece que sempre com o mesmo objetivo: esconder a verdade dos fatos dos telespectadores há muito entorpecidos pelo seu veneno e ignorar e desrespeitar os demais – os fracassomaníacos, os neobobos etc.

 

MÚSICA ERUDITA


Os críticos estão vivos

Irineu Franco Perpétuo

 

1) A realização de concertos da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo às quintas e sábados não tem nada a ver com a inauguração da Sala São Paulo, na antiga Estação Júlio Prestes. A Osesp já vinha tocando nestas datas desde 1997 – portanto, dois anos antes de a obra ser entregue à população de São Paulo. As apresentações ocorriam, inicialmente, no Memorial da América Latina, passando depois para o Teatro São Pedro. Os concertos foram largamente noticiados, e foi até possível escrever críticas de um ou outro.

2) Embora sejam dois concertos por semana, trata-se de um programa único, que é estreado na quinta-feira à noite e bisado no sábado à tarde. Não há, portanto, inconveniente editorial nenhum para críticas. Pelo contrário: a crítica do concerto da quinta-feira à noite pode ser publicada, sem atropelos, na edição de sábado, chamando (ou afugentando) o público para sua reprise. O cenário ideal seria ter matéria de apresentação na quinta-feira e crítica no sábado. Isto é até simples de fazer. Que não aconteça, contudo, deve ser cobrado dos editores dos cadernos.

3) Há uns dois anos, ocorria na Folha fenômeno detectado por [Alberto] Dines em seu artigo ["Desapareceu a crítica de música erudita", Observatório nº 71, veja remissão abaixo]: misteriosamente, a palavra “show” aparecia no título de textos meus e do Arthur Nestrovski sobre espetáculos de música erudita (embora, no corpo da matéria, a gente sempre utilizasse os termos certos, ou seja, “concerto” e “recital”). Encontrei Arthur em uma apresentação no Teatro Cultura Artística e ele estava possesso (com razão, porque eram os nossos nomes que assinavam os textos, e a gente é que acabava passando por ignorante). Disse a ele que, como colaboradores, e trabalhando fora da redação, estávamos sujeitos às arbitrariedades dos redatores encarregados de “fechar” as matérias. No dia seguinte, ele deu um telefonema para a redação, puxando a orelha dos redatores, e, desde então, nunca mais houve “shows” de música erudita na Folha.

4) Na Folha, fazemos crítica de música erudita eu, o Nestrovski e João Batista Natali; no Estado de S.Paulo, há o Carlos Haag e o Antônio Gonçalves Filho; e, no Jornal da Tarde, J. Jota de Moraes e Lauro Machado Coelho (isto sem falar nos jornais do Rio, bem servidos com Luiz Paulo Horta, O Globo, e Clóvis Marques, Jornal do Brasil). O que falta, portanto, não é quem escreva; é espaço para a gente escrever. Curioso fenômeno: os críticos estão aí, vivos e chutando, mas a crítica de música erudita, efetivamente, parece estar morrendo.

(*)

 

 

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(*) (sic)” (sic).Fazer uma aliança estratégica com os homens e mulheres da polícia dispostos a apertar o cerco contra policiais bandidos. “Rachar” a polícia, hoje unida na defensiva, cooptando os cooptáveis para servir a sociedade. O que é moral ou imoral, legal ou ilegal, muda ao longo do tempo. É preciso que detentores do monopólio legal da violência estejam a serviço da moralidade e da legalidade de hoje. Mas é preciso, correspondentemente, que a sociedade aceite as conseqüências disso mesmo quando desabam sobre “pessoas de bem” que infringem as normas.Transformar o conceito de proteção dos direitos humanos em condição para o combate à criminalidade, para a ação da polícia, não em algo que seja visto como estorvo ao trabalho da polícia (a idéia é do subsecretário de Polícia do Rio, Luís Eduardo Soares, e me foi transmitida pelo professor da USP Gildo Marçal Brandão). Veja conseguiu ignorar um congresso sobre violência realizado no Rio na semana em que era fechada a reportagem (Época online, 1/8/99: “O seminário Programas Municipais de Prevenção à Violência, promovido pela prefeitura do Rio de Janeiro e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID, reuniu na semana passada representantes de 36 prefeituras de cidades latino-americanas, 24 deles prefeitos. O encontro contou ainda com a presença de pesquisadores americanos; o ex-diretor de Polícia de San Diego, na Califórnia, Kenneth Forther, e o diretor do Centro de Investigação e Prevenção da Violência da Universidade de Columbia, Jeffrey Fagan”.) Falar em armamento e equipamento da polícia é insistir num sistema que não funciona. O problema não é armar. É desarmar. Não é hardware, é software. Um policial francês faz ao longo de sua vida profissional (25 anos), em média, seis (6) disparos com arma de fogo (estatística do início da década). Vi policiais prenderem um homem num bar de Paris sem dizer uma palavra, sem dar um soco, imobilizando-o no chão de modo fulminante, com técnica. No Rio, o filho de Regina Gordilho, que era lutador, e muito forte, parado supostamente com cocaína que teria ido comprar na Cidade de Deus, não pôde ser contido por seis homens da PM, que acabaram matando-o de pancada, por incompetência profissional. Infelizmente, não passa de wishful thinking repetir a ladainha de que “a grande maioria dos policiais brasileiros é constituída de gente honesta e trabalhadora”. As coisas são mais complicadas. Os policiais brasileiros conhecem muito claramente casos de corrupção e criminalidade policial nas delegacias e quartéis onde trabalham, e só recentemente começaram a tomar alguma providência a respeito. Com trinta anos de denúncias na praça, vinte e três anos sem censura aos jornais, quinze anos sem ditadura, o último policial ingênuo foi visto tomando guaraná num botequim em 1978, ano de lançamento de Lúcio Flávio (de Hector Babenco). Os maiores traficantes, ou seja, os que estão acima dos traficantes conhecidos, nunca foram presos no Brasil. Com exceção de estrangeiros ligados a quadrilhas que operam alhures. Campanhas eleitorais são fonte de corrupção. Policiais sabem disso tão bem (ou melhor) do que jornalistas. Veja escreveu que na polícia “a cúpula é pior do que a base”. San Tiago Dantas disse antes do golpe de 64 que no Brasil “o povo, enquanto povo, é melhor do que a elites enquanto elites”. Tremenda frase. Tentadora. Mas é uma dicotomia insatisfatória, feita de categorias um tanto vagas, essas de “povo” e “elites”. As 500 maiores empresas brasileiras gastam muito mais em ação social, proporcionalmente a seu faturamento, do que as 500 maiores americanas. Outro problema é saber se se trata de um gasto eficaz. Nem sempre, claro. Em todos os capítulos acima citados, houve e ainda há (agora sob pressão maior da sociedade) impunidade, ainda quando o crime tenha sido descoberto e denunciado publicamente. Até recentemente, policiais sempre cobriam o rosto de policiais conduzidos a julgamento, para que não fossem fotografados. Falar só das polícias civil e militar dos estados é deixar de lado uma parte considerável do problema. Há corrupção na Polícia Federal em escala muito pior do que se imagina. Por que o Exército afastou a Polícia Federal do combate ao narcotráfico e das tarefas de proteção da pessoa do presidente da República e de sua família? A presidência do inquérito pelo delegado de polícia, herança aberrante da ditadura getuliana, é uma das fontes evidentes de corrupção da polícia. Bons advogados criminalistas são quase sempre os que têm boas “amizades” com delegados e outros funcionários da polícia. Se a lei, durante vinte anos de ditadura militar, foi substituída pelo arbítrio, convém lembrar o fato de que hoje, em regime democrático, há no Judiciário juízes e promotores corruptos e bandidos. Há lei (muitas vezes má, obsoleta), mas sua aplicação continua sendo um problema. O fato de que a ditadura militar executou prisioneiros sem julgamento foi o ponto de partida da atual corrupção moral da polícia (e dos bandidos, que matam muito além do necessário a seus propósitos), segundo alvitre lúcido de um ex-comandante da PM do Rio de Janeiro. O Estado sinalizou a liberação da truculência. Como temia Pedro Aleixo, vice do marechal Costa e Silva que não tomou posse quando o presidente morreu, os efeitos do AI-5 foram mais graves quando chegaram ao guarda da esquina. Até o advento da ditadura e a conspurcação da imagem das Forças Armadas (o DOI-Codi, corpo repressor militar da ditadura, acabou imerso na corrupção), policiais militares ganhavam mal (sempre ganharam mal) e eram muito mais honestos do que hoje. Proporcionar conforto à leitura é uma preocupação louvável das empresas, mas não garante profundidade, agilidade, contextualização e um produto de melhor qualidade para o consumo produtivo do leitor. (Não é incomum, nos núcleos decisórios das empresas jornalísticas, a presença de pessoas que acham que o leitor não passa de um “cliente”.)Alguém estava enganando alguém, a julgar pelo desperdício praticado pela maioria dos diários, que, para gastar o estoque de bobinas produzidas para a antiga medida, passaram a imprimir uma “mancha” mais estreita em folhas mais largas. Para esses jornais que alegremente entraram na onda sem que ninguém mais fosse ouvido além dos dirigentes corporativos, o custo do papel não parece ser algo tão pesado assim. A palavra é desperdício. Nunca se gastou tanto papel… para nada. Quanto? Multiplique 2,54 cm em branco por 56 cm (a altura média de um jornal formato standard) e o resultado será 142,24 centímetros quadrados de papel inútil por página. Multiplique esses 142,24 pelo número de páginas da edição; depois multiplique pelo número de exemplares impressos, pelos dias de circulação, pelo número de empresas jornalísticas que embarcaram nessa transformação açodada… Quanto custa esse papel? – Nos últimos anos não houve acontecimento de porte cuja cobertura não contemplasse também o teor da cobertura. Essa é a boa notícia – a mídia admitindo que não é infalível, mas controversa. O problema está no limite dessa controvérsia. O grau de tensão que o exercício do jornalismo será capaz de suportar. A repetição da tragédia tem o dom de atenuá-la. A catarse é um processo de identificação entre espectador e a trama que não admite muitas reproduções. A duplicação de emoções tende a reduzi-las drasticamente até a sua atenuação completa. Além disso, a insistência nas irrelevâncias desgasta qualquer tema por mais portentoso que seja. São as cenas em que as câmeras focalizam as câmeras, ou quando aquele bando de jornalistas sai correndo porque chegou um carro da polícia ou uma lancha do corpo de salvamento. Isso é a caricatura da realidade, faz-de-conta com o tempo real. A persistirem esses vícios, breve as imagens capazes de acionar a imaginação do público serão desenhadas, sugestões de realidade. Como nos bons tempos dos jornais ilustrados. A mão. é a expressão criada aqui nos EUA para definir o que aconteceu na cobertura da nova tragédia na família Kennedy – fenômeno igual ao também registrado na morte da princesa Diana, no julgamento de O.J. Simpson, nos 14 meses do caso Monica Lewinsky. A grande mídia, a mainstream press, reduz a distância que a separava dos tablóides de supermercado. de Nova York

 
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