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07,quiUTC325UTC11bThu, 22 Nov 2007 07:31:49 +00002007 2007.

Notas do Porfirio.

quinta-feira, 3 de agosto

Acabei de voltar do almoço e tive a infelicidade de sentar ao lado de uma mesa cheia de gente feliz. O excesso de felicidade é uma deselegância e a euforia humana uma grosseria imperdoável. Pessoas eufóricas falam alto, esbarram umas nas outras e riem de forma descontrolada das maiores bobagens. É uma espécie de embriaguez do espírito, que, como toda embriaguez, só aproveita a quem também está embriagado. A inteligência exige uma certa sobriedade e essa coisa de ser feliz em demasia funciona como um nudismo do espírito. Uma risada alta, por exemplo, é o mesmo que um bundalelê da personalidade.

Nada contra o nudismo, claro, desde que estejamos diante de um belo corpo. O problema é que a alma da maioria das pessoas é deformada, cheia de cicatrizes e amputações. Há almas carecas, peludas, mancas, tortas, caolhas, excessivamente obesas ou excessivamente raquíticas. As almas, por sinal, assim como os corpos, necessitam de dietas rigorosas e treinamentos intensivos. Conheci um professor de literatura que padecia de uma obesidade mórbida, decorrente do consumo excessivo de gorduras saturadas e literatura latino-americana. Não faltam também almas raquíticas andando por aí, cuja anemia é tão intensa que só o fato de permanecerem de pé já é por si só surpreendente.

Cultivar uma alma atlética e bem disposta, que se mantenha dentro do peso. Alimentá-la de forma balanceada e exercitá-la diariamente. Enfeitá-la com belas gravatas de seda, sapatos polidos, e vesti-la adequadamente para cada ocasião. Eis aí um propósito para uma vida.

Postado por Porfirio às 4:57 PM Aqui, aqui (11) | Comente ao lado (8)

quinta-feira, 27 de julho

Ser pobre é uma condição social, mas ser classe média é um estado de espírito.

Postado por Porfirio às 6:06 PM Aqui, aqui (12) | Comente ao lado (0)

quinta-feira, 20 de julho

Arte não pode ser engajada e a sua politização é o maior dos crimes lesa-cultura que existe. O único fim da arte é a própria arte. Se ela vem contaminada de ideais não estéticos perde a sua identidade, como uma dessas batatinhas fritas sabor bacon, que não é mais batata frita nem chega a ser bacon. Se eu vou a uma peça de teatro, não me importo com as inclinações políticas do autor e não estou interessado em ouvir sua opinião sobre assuntos cotidianos. Entro ali para ter um contato com uma beleza irresponsável, intangível e abstrata. Não me fale em realidade dentro do teatro. Eu conheço a realidade. Todo dia de manhã eu acordo na realidade, tomo café na realidade, trabalho, janto e durmo na realidade. Arte realista é uma contradição em termos e a única coisa que espero de um artista é que ele me iluda, que ele minta para mim descaradamente.

Encenar uma peça de teatro sobre a realidade é mais ou menos a mesma coisa que organizar um jantar de gala, convidar cinqüenta pessoas e servir arroz com feijão. A platéia come arroz com feijão todo dia e a promessa de um grande banquete cria apetites para pratos imaginários, como uma lagosta taitiana regada a molhos filosóficos espessos, acompanhada de pequenas frases de humor doce e levemente ácido. Arroz com feijão é nutritivo, não nego, saudável, é verdade, e exatamente por isso se come em casa de segunda a sexta, e não em ocasiões especiais. Quando chego ao teatro e me deparo com um texto em que o marido de classe média reclama aos berros da perda de um emprego, aí sim me sinto enganado, exatamente porque ninguém ali teve o cuidado de se preparar para mentir para mim, apresentando um mundo elegante, sofisticado e engraçado. Lá estou eu, acompanhado de minha bela esposa, de terno, gravata e talheres de prata na mão, degustando um impensável mexidinho com farinha.

Postado por Porfirio às 4:26 PM Aqui, aqui (5) | Comente ao lado (0)

terça-feira, 11 de julho

Em bosta seca não se cutuca

O ceticismo é a mãe do conservadorismo. Pessoas com afetações revolucionárias são sempre motivadas por uma crença cega em sua própria capacidade de compreender e mudar o mundo. O cético duvida de suas habilidades e não acredita na capacidade humana de compreender o mundo e fazer o bem de maneira voluntária. Daí porque todo cético demonstra uma certa hesitação em aderir a programas reformadores e filosofias revolucionárias, por mais coerentes e verdadeiras que elas possam parecer em um primeiro momento. O conservadorismo é, antes de tudo, uma demonstração de senso de proporção perante as coisas como elas são, enquanto a postura revolucionária nada mais é do que um egocentrismo histriônico.

Afinal, diria o cético: se o mundo é uma merda, melhor não cutucá-lo.

Postado por Porfirio às 4:39 PM Aqui, aqui (2) | Comente ao lado (2)

sexta-feira, 23 de junho

Loucos somos nós

Tenho pesadelos com alguma freqüência e foi em Siracusa que tive o pior deles. Sonhei que estava em São Paulo, em meu escritório, na frente do computador, como neste exato momento. Ali, naquela hora, para mim era o bastante. Segundo minha mulher, acordei suado, agarrado ao travesseiro e gritando desesperado por socorro. Por isso insisto de novo. Só os loucos toleram a realidade. Para quem vive no Brasil, nada mais sensato do que a alienação.

Postado por Porfirio às 8:07 PM postCount(‘21841’);Aqui, aqui (0) | Comente ao lado (5)

sexta-feira, 16 de junho

Mandinga involuntária

Entrei e saí da Europa fazendo conexão em Madri. Na ida, graças ao atraso da bagagem, o que seriam duas horas acabaram virando cinco, tempo suficiente para tentar ir atrás de um sanduíche de presunto cru ibérico e investigar a adega de uma lojinha na sala de embarque. Já no aeroporto, antes mesmo de sobrevoar a Córsega até Roma, pude constatar que a grandeza de um país se mede por dois fatores: riqueza e tradições.

O maior sinal de riqueza da Espanha é a civilidade do aeroporto de Madri. Também acho que falar em civilidade de um aeroporto é o mesmo que falar na elegância de um matadouro ou na classe de um lava rápido. Mas a graça do aeroporto de Madri é que ele faz de tudo para não parecer um aeroporto. Não há balcão para olhar aviões, tipo de lugar que pressupõe que todos que estão ali nasceram em Birigui e nunca andaram de elevador. Quem olha muito tempo para um avião parado deve sofrer de algum grau de autismo, imagino eu. Outra coisa que chama atenção é o fim daqueles anúncios (atenção senhores passageiros etc. etc.) em alto falante. Todos os corredores têm uma TV de plasma com a programação dos vôos e um aviso de que não há chamada oral para os analfabetos, que, presumo, devem ter sido abolidos do país.

Reina um certo silêncio no aeroporto de Madri, uma calma respeitosa bem adequada aos que, como eu, se sentem face-a-face com a morte antes de embarcar num avião.

Quanto às tradições, entrar numa loja de produtos típicos e encontrar uma bandeja de jamón ibérico de bellota dá uma inveja danada. O jamón ibérico é feito de uma raça de porcos semi-selvagens que tem a pelagem e as unhas dos pés pretas (por isso o nome ‘pata negra’) e que se alimenta exclusivamente de bellotas, uma espécie de castanha que dá na Estremadura. O teste para saber se um presunto cru é bom é bastante simples. Basta ficar mastigando a fatia sem pressa por alguns minutos. O bom presunto tem pouco sal e vai se dissolvendo até desaparecer. O mau é salgado pra diabo e se transforma numa espécie de chiclete de sebo sem gosto definível, que deve ser ou engolido (para seu desprazer) ou cuspido de volta no prato (para o desprazer da sua acompanhante). Façam um teste com o da Sadia e vocês vão entender do que eu estou falando.

Visitar uma loja de produtos espanhóis e tomar uma taça de Marqués de Murrieta, acompanhada de algumas fatias de jamón ibérico de bellota, foi um contraste intolerável para quem havia passado a manhã anterior no saguão de Cumbica, admirando um impensável tucano esculpido em cristal de rocha. O tucano, talhado em pedra cor-de-rosa, estava ao lado de uma camisa da seleção brasileira e vinha rodeado por seis garrafas de cachaça, numa espécie de mandinga involuntária em favor do hexa na Alemanha. Mesmo sem querer, talvez o arranjo representasse a única coisa realmente típica do brasileiro, a mandinga, uma mistura de superstição ingênua com misticismo oportunista, a analogia perfeita do caráter de um povo condenado à irracionalidade e ao atraso.

Reclinado numa poltrona couro e vendo o sol seco atravessar a meia taça de vinho em minha mão, a única coisa que pude fazer naquele momento foi lamentar profundamente por quem somos, enquanto esperava a fatia do presunto terminar de se dissolver em minha boca.

Postado por Porfirio às 5:46 PM Aqui, aqui (13) | Comente ao lado (0)

quinta-feira, 8 de junho

Ricci

Faz tanto tempo que eu nem sei bem por onde começar. O que eu posso dizer é que nesses últimos meses continuei meus esforços para me aproximar ainda mais do meu ideal elitista-cético-alienado. Com o mundo do jeito que anda, acho justo alguém querer ser alienado. Nada mais incômodo do que a realidade, um lugar em que sou obrigado a tomar vinhos argentinos ao invés de franceses e, ofensa maior, a comer foie-gras de pato e não de ganso. Só os loucos toleram a realidade.

Enfim. Ganhei algum dinheiro, com todos os inconvenientes e desconfortos inerentes a essa atividade. Em compensação, gastei boa parte dele na Europa em uma interessante pesquisa científica que estou desenvolvendo, com o seguinte título: qual o melhor spaghetti ai ricci da Sicília? Conheci o ricci (ouriço) na culinária japonesa, na forma de sushi, e nunca me ocorreu que ele daria um bom molho de macarrão. Coisa de gênio, tanto que, segundo me disse um barista da Catânia, o molho foi inventado por Leonardo da Vinci, logo após o fracasso do seu modelo de helicóptero.

Como sou um cara legal e muito preocupado com a igualdade de informação neste mundo moderno e globalizado, me adianto e digo a vocês que o melhor ricci é o do Don Camilo, em Siracusa, restaurante impecável construído num pequeno e irretocavelmente reformado palácio do séc. XIV. O dono do Don Camilo tem um Phd em óleo de oliva e sua tábua de queijos foi eleita a melhor da Itália em 1997. Cada um desses títulos isoladamente considerados vale mais do que um Nobel de Literatura e um Pulitzer juntos.

Além do Don Camilo, Siracusa tem outras delícias, como, por exemplo, imaginar Platão sendo vendido como escravo por Dionísio I após cometer diversas cagadas como rei-filósofo. Diz a lenda que os amigos de Platão tiveram de fazer uma vaquinha para comprar o filósofo e garantir sua liberdade. Gosto de pensar nessa história como verdadeira, porque ela é um exemplo eloqüente da distância entre teoria e realidade e um lembrete para apaziguar um pouco as pretensões de alguns intelectuais. Se Platão tivesse inventado algum molho para pasta eu teria mais respeito por ele.

***

A partir de agora pretendo escrever algo pelo menos uma vez por semana, até porque não há meio mais agradável para se alienar do que a literatura. Isso, claro, se não me chegarem às mãos algum lote de trufas ou uma dúzia de escargots.

Postado por Porfirio às 5:20 PM Aqui, aqui (10) | Comente ao lado (2)

segunda-feira, 10 de outubro

Dúbio

Dúbio era a pessoa mais indecisa do mundo. Dizem que seu parto levou 72 horas, já que ele não decidia se devia mesmo nascer. Enquanto outras crianças choravam porque queriam leite, ou colo, ou um chocalhinho, Dúbio era um nenê quieto e contemplativo. Tinha pernas e braços fortes, mas seu caráter padecia de uma poliomielite mental, que o paralisava.

Dúbio cresceu trancado dentro de casa, acuado pelas incertezas. Desde as ordinárias: Quem namorar? Onde comer? Até as filosóficas: Quem sou eu? Qual o sentido da vida? Deus existe? Num campeonato internacional de indecisão, Dúbio tirou primeiro lugar ao ficar em dúvida se deveria mesmo se inscrever. E a vida, como Dúbio percebeu logo, era feita de escolhas, que desfilavam todos os dias em sua frente, minuto a minuto, envenenando seu espírito. Não conseguia decidir nada, por mais que tentasse. Não saia de casa. Não punha os pés nas ruas.

Um dia, porém, cansado do isolamento, Dúbio resolveu sair. Não sabia pra onde, mas pela primeira vez estava decidido a sair. Vestiu sua única roupa, o único paletó, cinza escuro. Amarrou seu par de sapatos e saiu. O dia estava claro e duas nuvens passeavam no céu. Qual era a mais bela? Não conseguia escolher, mas estava feliz, decididamente feliz.

Sempre tinha olhado para as escolhas como enigmas diabólicos, como dilemas infernais insolúveis, como forças destruidoras de futuros alternativos. Agora todo um universo de possibilidades estava à sua espera e ele transpirava de ansiedade e palpitações. Antes viver uma só realidade do que uma infinidade de sonhos. Agarrado nessa certeza fundadora, Dúbio ergueu o queixo e olhou o céu sem medo. Aquela é a nuvem mais bela, pensou. E enquanto atravessava a rua contemplando a beleza da nuvem escolhida foi atropelado por um caminhão de mudanças.

Nas contas finais de uma vida, a única coisa certa para Dúbio foi a morte.

Postado por Porfirio às 6:09 PM Aqui, aqui (2) | Comente ao lado (5)

quarta-feira, 17 de agosto

Ah, esses filósofos

Todas as autoridades acadêmicas vão concordar comigo: nada como uma citação obscura para ganhar uma discussão. Já vi debates serem ganhos com uma só citação em alemão, cujo significado exato nem mesmo o autor da frase deve ter entendido. Por isso, com o nobre objetivo de ajudar vocês, queridos leitores, a confundir seus parentes naquelas discussões no almoço de domingo, preparei uma lista com quatro nomes de pensadores solenemente ignorados pela patuléia-lúmpem em geral.

De lambuja, vai também uma frase ou pensamento marcante de cada um, que resume a visão de mundo desses homens incríveis. Comediantes e filósofos têm em comum, além da falta de dinheiro, a necessidade de punch lines para fazerem sucesso, na linha do penso logo existo, tudo que sei é que nada sei, sobre o que não se pode falar deve-se calar etc.

Tenho uma outra teoria, que diz que para cada frase de filósofo existe um ditado popular com a mesma idéia, só que mais direto e engraçado (por exemplo, sobre o que não se pode falar deve-se calar = em boca fechada não entra mosquito). Mas, sinceramente, não quero falar disso agora.

Hipócritas de Éfeso
Pré-socrático quase esquecido, tinha por hábito andar pelas ruas de sua cidade natal vendendo filosofias em dez vezes sem juros. Inventou um desencaroçador de azeitonas e diversos sistemas filosóficos de enorme sucesso na Grécia antiga, que vendia em sua barraquinha sem direito a troca ou garantia. Criador do bigode falso, da flor que espirra água e da dentadura de vampiro, Hipócritas é lembrado principalmente pelo golpe dado em Diógenes, que, após gastar todo seu dinheiro em uma metafísica que não funcionava, perdeu a crença nos homens de bem e resolveu morar num barril.
Pensamento marcante: “A dogmática é como um travesseiro gostoso e macio. Todo mundo devia ter a sua.

Ernst von Meistertube
Um dos maiores nomes da filosofia chinesa, foi o primeiro oriental a arriscar uma defesa convicta do ceticismo. Autor da Histólia da dúvida em quatlo ou talvez quem sabe cinco volumes e do Plováveis maioles nomes do ceticismo, né?, Meistertube sofria com as brincadeiras sem graça de seus alunos, que gostavam de puxar seus bigodes de chinês e sair correndo pela porta da sala de aula. Morreu pobre e esquecido, já que seus fiéis discípulos duvidavam de tudo o que ele dizia e se recusaram a ensinar sua doutrina.
Pensamento marcante: “Duvidem de tudo, seus bulos, menos de mim!

François Marrecaux Vichisoise
Filósofo alemão ligado à escola Liebfraumilch. Seu nome foi uma brincadeira de mau gosto do pai, Karl Blicker, conhecido palhaço beberrão da região de Munique. Durante a segunda guerra foi perseguido na Alemanha, sempre apanhando por ser confundido com um francês. Fugiu para a França, onde levava surras homéricas por ter passaporte alemão. Criou um horóscopo próprio com referências aos 15 diferentes tipos de presunto da Baviera que, acreditava Vichisoise, representavam traços essenciais das personalidades humanas. Depois de tanto levar pancada na cabeça, desenvolveu um curioso sistema filosófico baseado nas propriedades espirituais do nabo forrageiro.
Pensamento marcante: “O na-na-na-bo forrageiro é-é lindo. Dã.

Abraham John F. Coolfeld Jr
Americano do Texas, quando criança passava a mão na bunda das amiguinhas de escola e encoxava a vó no tanque. Na juventude, se divertia jogando bolotas de estrume nas janelas dos vizinhos e, já adulto, se tornou dono de todos os bordéis do meio-oeste americano. Passou boa parte de sua vida tentando descobrir o significado da letra “F” no seu nome, sem sucesso. Coolfeld Jr. defendia a inexistência de uma realidade palpável, com exceção do traseiro de sua vizinha mexicana Lolly Rodriguez, que era, nas suas palavras, “palpável e beliscável“. Na prisão, onde passou 10 anos por porte ilegal de armas, Coolfeld criou as bases da sua Filosofia Moral, tentando desenvolver uma ética baseada na liberdade de cada um fazer o que bem entender da vida.
Pensamento marcante: “Há um sólido equilíbrio em todos os elementos do Universo, que une e dá sentido às coisas. Desde que você não tenha tomado sozinho uma garrafa de Bourbon.

Postado por Porfirio às 3:46 PM postCount(‘19225’);Aqui, aqui (0) | Comente ao lado (3)

sexta-feira, 5 de agosto

Queremos mais escândalos

Ontem, desci a rua da barbearia até um restaurante japonês. Esse restaurante é um achado e sempre que meu dia permite escapo pra lá atrás dos torôs (uma parte nobre do atum, espécie de filé mignon) e das vieiras (o molusco que vive dentro da concha da Shell). O torô é a melhor carne de peixe que existe, sério mesmo. Nos EUA chega a ser tão caro que existem contrabandistas especializados na mercadoria. E as vieiras são pérolas macias e luminosas de comer, com um gosto particular, diferente de tudo que estamos acostumados. Ela não parece carne, não parece peixe, não parece fruto do mar ou vegetal. A vieira é o único alimento do mundo que não permite analogias.

Mas lá descia eu a rua quando me ocorreu uma verdade rodrigueana, dessas que fazem o sujeito levantar o dedo indicador e falar sozinho no ponto de ônibus. A verdade é esta: o maior sinal da decadência da intelectualidade brasileira é a completa ausência de escândalos. Não escândalos de corrupção envolvendo dinheiro público (nisso somos bons), mas escândalos de costumes, escândalos culturais. Também não me refiro ao escândalo padrão Gerald Thomas, em que uma peça monótona tenta se salvar com a entrada no palco de uma velha paralítica de 92 anos pelada. Refiro-me, é bom deixar explicadinho, à Idéia Escandalosa, ao Conceito Escandaloso. Falo daquele ponto de vista que se choca frontalmente com o que as pessoas estão habituadas a pensar, com a middle class morality de Shaw, com a conventional wisdom de Keynes.

Vejam se vocês concordam ou não comigo. Não é trabalho do intelectual ficar repetindo e justificando o que todo mundo já pensa. Quem agrada aos outros é o comerciante, que tem a obrigação de atender o gosto do freguês. O intelectual tem o dever de mostrar o outro lado, de pensar diferente. O intelectual deve perseguir a classe média e ser perseguido por ela. Sua obrigação é escrever livros maledicentes, que façam as pessoas cuspirem no chão após dizer que acham tudo aquilo um absurdo, sem saber explicar exatamente o porquê. Os intelectuais não podem ter partido, agremiação ou clube. Têm que ser expulsos dos jornais, banidos das associações. O intelectual verdadeiro tem o primeiro dever de ser ele próprio. De se exagerar exponencialmente e de banir do seu espírito tudo o que é vulgar e convencional, até chegar a uma singularidade última e definitiva. Não há nada mais chocante e escandaloso do que um indivíduo pleno de si mesmo.

Eu respeitaria mais o Gianotti e o Comparato se, por exemplo, eles fossem flagrados numa suruba com 12 anãs acrobatas. Ou, sei lá, se fossem pegos vestidos em batas roxas, sacrificando cabras em um sítio a 90 km de São Paulo. Se fornicar com 12 anãs não é um sinal inequívoco de brilhantismo intelectual, pelo menos mostra que o homem tem lá suas inclinações pessoais, que não são o resultado monótono e previsível da média da opinião pública. Diogo Mainardi disse que o nosso intelectual padrão, mesmo quando é radical, é radicalmente a favor das obviedades. O Gianotti, por exemplo, é radicalmente a favor do fim da pobreza. Eu não. Gosto de pobres. Acho eles divertidos, especialmente aqueles que cospem fogo nos semáforos. Darcy Ribeiro fazia defesas inflamadas da superioridade da cultura do Brasil, segundo ele a Roma do mundo pós-moderno (detesto essa expressão pós-moderno, que está no meu rol de palavras odiosas como acalentar, destarte e arvorar-se; ignorem-na e troquem por atual ou contemporâneo, ok?). Comparato é radicalmente a favor do fim da exploração do povo brasileiro, que eu, só por birra, acho justa e defendo com unhas e dentes.

Certa ou errada, é impressionante como ninguém aqui é a favor da guerra do Iraque. Ninguém, nenhuma alma penada, acha que a cultura indígena é atrasada e que, ao invés de ganhar reservas, os índios deveriam ser – deixe-me ver como direi isso de uma forma deselegante -, civilizados o mais rápido possível. Ninguém é a favor do estado mínimo ou do Bush. As opiniões dos intelectuais brasileiros são exatamente as mesmas dos pedreiros brasileiros, só que com um vocabulário mais rico. E o máximo que eles conseguem fazer para nos escandalizar é produzir uma peça em que Hamlet é punk e mata Polônio com um lança-chamas.

Postado por Porfirio às 7:39 PM Aqui, aqui (12) | Comente ao lado

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